sábado, 12 de novembro de 2011

Muitas vezes o Pessoa traduz o meu estado de espírito

Nuvens

No dia triste o meu coração mais triste que o dia…
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de conseqüências?
Não, nada…
O dia triste, a pouca vontade para tudo…
Nada…
Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive).
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo…
Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente…
Não sentem: para que haveriam de sentir?
Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, álacre, vivo, contente de sentir-se…
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer…
No dia triste o meu coração mais triste que o dia…
No dia triste todos os dias…
No dia tão triste…

Álvaro de Campos (um dos heterónimos mais conhecidos do Fernando Pessoa)


domingo, 23 de outubro de 2011

Buraco negro


Por mais que a gente se esforce há sempre o momento, sem intervalo de tempo definido, que ermos de escorregar para o nosso buraco negro.
Talvez mantendo-nos sempre ocupados [diga-se, sem pensar] conseguimos evitar por algum tempo. Porém, há sempre um momento de distração que nos leva a este lugar sombrio que há em cada um de nós.
Escuro e repleto de questionamentos, nos encontramos sempre sozinhos a enfrentar o nosso mais poderoso inimigo – nós mesmos.

São tantas perguntas sem explicação. Momentos em que ficamos cara a cara com nossos valores e temos que nos esforçar para não corrompê-los, já que os corrompendo, corromperemos a nós mesmos. E como ermos de saber se nossos valores são o caminho da verdade? Mas são nossos valores. E de que somos construídos senão de nossos valores?

Somos livres! Será? Como posso considerar-me livre se considero tão importante a opinião que o meu vizinho tem a meu respeito? Não serei eu uma marionete da sociedade? E será o exercício da liberdade constituído por fazer tudo que posso? Ou serei de fato livre ao saber dizer não, mesmo quando posso dizer sim?

Confesso que me sinto muito mais livre quando sustento um não mesmo podendo dizer um sim. Talvez por não me sentir escravo do meu instinto... Mas um ser que pensa nas conseqüências das suas ações. Embora saiba que também sou instinto e que segui-lo já me tenha proporcionado imensuráveis prazeres. Aí encontro mais uma questão : Quando segui-lo?

Às vezes tenho inveja dos completamentes instintivos... Deve ser leve viver sem questionar a realidade, sem querer ser correto o tempo todo, sem pensar no outro... Mas será isso viver? Viver - sempre o revesti com um sentido romântico, quase utópico! Que se aproxima muito mais do conceito que eu tenho do ser humano, da busca incessante da sabedoria, do ser! E 'ser' é subjetivo, utópico, pensante, emotivo, amante... Ser é a resposta que procuramos.  É o porque viemos... o porque existimos! Existimos para ser! E somos únicos. Mas como ser único num mundo repleto de padrões? E bem sabemos que estão nossos tão aclamados valores imbuídos de todos esses padrões.

Desde muito cedo aprendi que devemos  não fazer com o outro o que não gostaríamos que fizessem conosco.  Claro que em algum momento escorreguei. Contudo, o mantenho sempre em mente, permeando as minhas decisões, principalmente aquelas que considero mais relevantes. Também sei que devo ter deixado de viver algumas coisas, mas acredito ter vivido outras melhores.

Lembro que quando criança, de tempos em tempos, surgia-me uma falta de ar. Daí eu gritava por minha mãe e dizia “mãe, não consigo respirar”. Talvez esses momentos consistiam em meus buracos negros pueris. Quando da morte eu tinha medo e da vida eu queria correr... O que eu queria afinal?

Falar demais consiste em um dos meus maiores defeitos, imagino. Porque algumas vezes acabamos falando o que não pensamos ou o que pensamos de maneira meio tosca, pouco entendível. É como se fosse um vômito de nossos pensamentos... Está  tudo misturado... E fede!

O futuro não existe até que se torne presente. Então se clama: Viva o presente!! Mas às vezes desejo que o presente passe logo... para que eu possa sair desse buraco negro...

domingo, 16 de outubro de 2011

Teu olhar


 
Os teus olhos contam-me segredos
que os teus pensamentos desconhecem.
Neles te enxergo sem o controle
que a tua prudência requer.

É você conforme eu!

E assim, hipnotizante...
arrepia-me a pele,
resfria-me o  pé do ouvido,
amolece todo o  meu  corpo,
                    deixando minha respiração...
 descomunal.
            
Tudo,
tudo efeito colateral,
  do fascínio desconcertante
 que há,
nesse encontro do meu
com o teu
                    olhar!

domingo, 2 de outubro de 2011

Eu Sou do Mundo!!!

Pirralho 'arretado', mas que acabou espelindo o mesmo veneno que o atingiu. Sim, orgulho de ser nordestino, mas antes de tudo, de ser um cidadão do mundo! Livre de preconceitos e estereótipos originados da falta de conhecimento e também de virtudes essenciais como a sabedoria, a justiça e a verdade.
As pessoas devem ser medidas pelo seu caráter e pelo seu coração. Alma não tem cor ou sotaque, muito menos nacionalidade ou regionalidade. Alma tem amor, dignidade, lealdade, fraternidade, verdade, humildade. E se um ser humano não tem alma, eu posso discriminá-lo por não considerá-lo SER HUMANO!!!

 
 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Não importa se vivo
mais de sonho que de fato.
O que importa é que o fato
seja sempre um sonho!

Arrependimentos? Nenhum.
Embora tanto à devaneios me prenda...

O fazer algo novo é essencial.
Mas também há algo de fascinante
no fazer todo dia, sempre igual.

Não é questão de ser contraditória.
É buscar a cada instante aprender
a ser um novo ser!!

Luana Carvalho
Arte: Jaroslaw Kukowski

sábado, 13 de agosto de 2011

Escova de dentes


A  idéia de vê-las juntas,
dividindo o mesmo creme.
Faz-me ficar assim,
com ar ingênuo de contente.

Isso que elas trazem,
essa intimidade agressiva,
expondo-nos do avesso,
do jeito que a gente é.

O sonho se faz real
e profundamente simples...
É tão bom vê-las assim,
envelhecendo...

sábado, 25 de junho de 2011

O mar




Gosto do mar
porque parece infinito,
assim como deveria
ser o amor.
Gosto do mar
porque me acalma
contemplar suas ondas dançando
ao ritmo dos ventos.
Gosto desse casamento
do mar com o céu,
quando fica difícil distinguir
o começo de um e o final do outro.
Gosto desse som que emana das ondas
acalmando minhas idéias,
revigorando meu ser.
Gosto desse cheiro que
me faz lembrar da importância
das coisas simples.
Gosto de sentir a areia
massageando meus pés,
tocando meu corpo...
Gosto do banho salgado
que leva as energias negativas.
Gosto de ficar sozinha
olhando, sentindo e ouvindo
esse meu amigo, chamado mar.