sexta-feira, 28 de abril de 2017

Separação


Não adianta se fazer de vítima 

quando não há culpados.

Se dói, curta em silêncio.

Vá ao fundo do poço,

sofra, amadureça.


Tentei e dei o melhor de mim.

Mas que culpa tenho eu

se ele não chegou - o amor.


Sempre fui verdade, você sabe.

Nunca disse que te amava, 

nem mesmo um 'idem' se me falavas.


E agora, porque não fui capaz de te amar 

Perdi todas as qualidades, 

Que maldade!


Foi seu primeiro amor não correspondido? Duvido.

Acontece com todo mundo, 

não se sinta o escolhido.


E se é pra tirar esse peso do seu coração, 

que outro dia li naquela indireta,

Avise que não foi ele quem escolheu mal, 

Avise que a culpa foi do meu!

Que não te escolheu...



Luana Carvalho

Arte: Edvard Munch - Separação, 1896


terça-feira, 11 de abril de 2017

Sobre borboletas e sinos



Não dá pra saber precisamente quando 

você jogou aquelas borboletas no meu estômago. Só lembro da energia provocada pelo bater das asas que foi tomando conta do meu corpo... até os sinos tocarem.


Mesmo os estranhos percebiam. Tentei te falar... fitava-lhe na esperança que você enxergasse nos meus olhos as cores das borboletas. 


Sei que esse lance de jogar borboletas no estômago dos outros é involuntário. Não há vítimas ou culpados. Destino, acaso, sorte, castigo... Pode ser qualquer coisa. Não importa. É inexplicável.


Talvez o teu cheiro, tua pele, o teu senso de humor, nossas afinidades, o teu modo amável de me tratar, de me olhar... sei lá, você me fazia sorrir, você me fazia sonhar! 


Sim, eu fugi. Espero que você me entenda. Acontece que os sinos passaram a tocar alto demais e as borboletas se multiplicavam sem cessar... eu precisava dividir com você, você entende? (...) Eu não consegui suportar sozinha... 

Sim, também sei que o tempo não foi nosso aliado. Por isso muitas vezes eu desejei te desconhecer só pra te conhecer novamente. Então quem sabe né? Talvez... talvez numa outra vida... Eu?! "eu acredito em tudo, desde que seja incrível".


Mas esse mesmo tempo que eu culpo, também foi meu amigo e, transformou tudo em algo que posso chamar de bonito. Algo que ocupa um lugar especial, embora não preencha. Há espaço pra novos sonhos...


É verdade que, sem estardalhaço, os sinos ainda tocam e as borboletas ainda dançam. 

E que até agora,

todos eles, ponto final.

você, reticências...


Luana Carvalho

Arte: Salvador Dalí

quinta-feira, 30 de março de 2017

Rosas do deserto

 


Minha mãe costuma enviar fotos de suas rosas, especialmente pela manhã.

O meu pai enviaria canções, eu imagino...

Há pessoas que se expressam bem com palavras, outras com gestos, outras com o olhar... O meu pai era bom com as palavras, olhava fundo nos meus olhos e falava com a firmeza necessária pra me deixar segura. Já minha mãe nunca foi muito boa de conselhos, está sempre em dúvida e prefere finalizar com um "você que sabe, minha filha". Ela se expressa através de atitudes, no cuidado e na doação cotidiana... é assim que ela sabe nos amar. 

Voltando às rosas... que lembram cheiros... cheiros são memórias. Gosto do cheiro das rosas da minha mãe, mas também gosto de cheiro de cigarro, que lembra o meu pai...então esse negocio de cheiro bom é bem relativo, pois eu sinto saudade do cheirinho de hollywood... Há uma foto na minha parede em que eu seguro um ramalhete de rosas sentada ao lado do meu pai bem magrinho, com um chapéu cobrindo a cabeça raspada e um óculos escuro... eles já eram divorciados naquela época, mas posso dizer hoje que as rosas da foto, de certa forma, representam a minha mãe.

Um certo dia o meu pai me falou, com aquela firmeza no olhar, que a única mulher que havia amado na vida tinha sido a minha mãe. Eu, emocionada, claro, achei lindo... mas um vício, um desencontro, um orgulho... enfim, muitas coisas podem ser mais fortes que o amor. Não deveriam, mas podem.

Eu gosto muito de rosas e de cheiros e de olhares... sobre ver flores em pessoas, sobre cheiros que te levam a outros tempos e mundos e sobre olhares que entregam tudo... .

e, particularmente, sobre as rosas do deserto:

minha mãe, rosa 

com o doce perfume da presença 

meu pai, deserto 

com o triste vazio da saudade.



Luana Carvalho

Foto: minha mãe