segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Final de expediente

Era final de expediente e ela já se sentia cansada e até lamentava por estar atendendo  às pessoas do outro setor, afinal, tinha tanta coisa por fazer, tantas metas para atingir.
E chamou um, e outro, e outro mais... Era sempre alguma coisa muito rápida e sem tanto ‘valor’ para a organização.
Apertou o botão e ficou esperando o próximo.
Lá vinha ele, não era uma pessoa ‘normal’, ao certo era uma deficiência de nascença, mas que ela não sabia o nome. Os membros superiores e inferiores eram atrofiados. O corpo também. Era muito magro, tinha a face pequena que destacava sua cabeça. 
Também andava diferente, parecia até engraçado.
Com certeza a maioria das pessoas que estava ali olhava para ele e pensava: mais um sustentado por nós.
Olhou para o rosto dele, andando com seu jeito peculiar, e se surpreendeu com um sorriso indescritível. Os olhos brilhavam e ele parecia, mesmo tendo esperado quase duas horas na fila, tão feliz! Isso a deixou curiosa, reflexiva. Ela sorriu para ele e o recebeu alegremente. Aquele sorriso havia salvado o seu dia, revigorado suas energias e a feito lembrar do valor da vida.
O saudou com uma boa tarde e perguntou qual era o seu problema:
- Vim apenas saber porque meu cheque especial não fora renovado.
- Então vamos dá uma olhada nisso! - disse ela sorrindo.
Olhou o seu cadastro e verificou que era uma conta universitária.
- Sua conta é universitária. Você ainda está cursando?
- Sim, estou iniciando o doutorado. Essa última bolsa creditada na conta ainda foi a do mestrado, mas o próximo mês já será a do doutorado.
Ela se surpreendeu [seus olhos se encheram de lágrimas] e olhou para aquele rosto que ainda sustentava um sorriso encantador e disse:
- Poxa! Meus Parabéns! Qual a área do seu doutorado?
- Engenharia elétrica. Resolvi que vou seguir a carreia acadêmica.
- Que maravilha! Também tive planos de seguir a carreira acadêmica, mas acabei seguindo outros caminhos, embora isso ainda não tenha saído dos meus planos.
- Ahh, não desista! Você consegue!
Ela não podia dar nenhuma desculpa. Se ele, com todas as suas limitações, conseguiu, ela também conseguiria.
- Pronto! Limite renovado!
- Muito obrigado! Só mais uma coisinha, eu gostaria de financiar um carro, seria possível fazê-lo aqui pelo banco?
- Traga a sua declaração de rendimentos. Mesmo sendo temporário, posso tentar fazer com o tempo de duração do seu doutorado. Farei o possível!
- Trarei sim! Muito obrigado e tenha um bom final de semana!
- Para você também. Tchau!
Ela pensou: aquele homem franzino e visto como ‘deficiente’ ou ‘anormal’ contribuía infinitamente mais para o desenvolvimento da sociedade que muitos ‘normais’ - que gastam seu tempo com inutilidades ou praticando o mal.
Ponto para os ‘anormais’! Pensava ela em sua mesa.
E ela jamais esqueceria aquele rapaz, aquele sorriso...
Saiu do trabalho revigorada, crente na vida e no poder que habita em cada ser humano. Envergonhada por suas lamentações inúteis e, feliz, muito feliz.
Em casa, foi contar toda a história à sua família. Ela sustentava o sorriso do rapaz agora. Mas ninguém poderia imaginar o que sentiu. Foi uma experiência dela, única, em um momento que ela estava aberta a entender o significado que havia além do aparente, das pequenas coisas do cotidiano. Foi mais um momento mágico de desenvolvimento. E ela foi dormir sorrindo...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Início de mais um capítulo


A vida é como um livro, feita de capítulos. E o ideal é que não comecemos a ler [viver] o próximo antes de terminar o atual. Precisamos viver cada parágrafo, cada frase, cada palavra. Precisamos participar de todos os acontecimentos, vivenciando novas experiências e descobrindo novos caminhos. Precisamos enfrentar os obstáculos e as angustias, sem perder a esperança e a alegria.

Quando temos a paciência de concluir um capítulo, entramos no outro com a tranquilidade de quem entende o que tem por vir  [sabe o que quer].  Creio que assim temos uma maior chance de sucesso na nova leitura [vivência].

E é assim que eu me sinto agora - encerrando um capítulo e disposta a iniciar um novo com a tranquilidade e a vontade necessárias. Foi um capítulo de grandes descobertas, alegrias, desenvolvimento... mas também de muitas dúvidas, medos, decepções... conquistas, algumas mudanças de planos... enganos, sonhos, lágrimas, sorrisos, precipitações, hesitações... enfim... Tudo imensamente indispensável  ao processo de aprendizado. E o que somos além de eternos aprendizes?

Sinto-me seguramente entrando em um novo ciclo, um novo capítulo dessa minha amada vida [e nada mole também]!
Que Deus abençoe as decisões que irei tomar  e que me traga muitas surpresas [boas] nesse capítulo que se inicia! Amém!!!

sábado, 12 de setembro de 2009

Prestação de contas


Tinha ele imensa cobiça de amar
De sentir os inexplicáveis fogos
Que explodiam num ser perplexo
Arrebatado por tal presente.

Duvidava do que sentia
Portanto nada existia
Amor é certeza e alegria
Deixa cego e vicia.

A imprecisão o fez jurar
Sentir algo que não sabia
A alguém que mal conhecia
Para fugir dessa agonia.

Mas o amor requer tempo
Paciência, coragem e primazia.
Não há espaço para covardia
Não se constrói nada da noite pro dia.

Certa de sua hesitação
Ao vê-lo meter os pés pelas mãos
Até foi capaz de lhe dar o perdão
Na esperança de que seu coração
Ainda tivesse salvação.

Teve não
Porque só os guerreiros
Homens e mulheres verdadeiros
Sabem se doar por inteiro.

Resta à maioria o faz-de-conta
O sorriso amarelo no retrato
Dividir as contas do mês
E prestar contas ao estado burguês!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Enxergando além



De repente escuridão!
Chovia e agora não tinha luz.
Escuro...
Lembro que um dia tive medo dele.
Medo dele e de ficar só.
Não tenho mais...
De certo deve ser um luxo.
Ou coisa de criança.
Não tenho mais...
Estranho...
Andei pela casa utilizando-me do tato.
Experimentei o gosto de ver e sentir a escuridão.
Acendi uma vela e continuei a estender a roupa.
Silêncio...
Ouvia apenas o barulho da chuva.
E pequenos ruídos que denunciavam a existência humana.
Estender a roupa foi prazeroso naquele instante.
Logo depois eu deveria dormir.
Mas o sono passou.
A escuridão me despertou.
Estranho...
Sempre durmo no escuro.
Mas esse escuro parecia diferente.
Não havia outra opção.
Não havia o som da televisão.
Ouço o barulho de alguns carros.
Quando de repente, no prédio vizinho,
Uma família começa a cantar ‘parabéns para você’.
Algo breve, sem emoção.
Estranho...
A luz nunca faltou nos meus ‘parabéns’.
Senti vontade de ter todos que gosto naquela condição.
No escuro as pessoas têm mais luz.
Daí podemos enxergá-las melhor.
Podemos escutá-las atentamente.
Ao certo conhecê-las com mais vontade.
Podemos discerni-las com as mãos, senti-las pela voz.
Falar com a pele e com a respiração.
Nos descobrir no silêncio.
Escuro...
Estranho...
Silêncio...
Tudo que eu precisava naquele instante.
Deitei...
E à medida que a vela acabava...
Meus olhos cerravam-se.
E viajei para o mundo dos sonhos...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sozinha num canto qualquer do meu mundo... surgem imagens, soam palavras, formam-se frases...


O samba satisfaz todos os momentos... Quando estou triste ele me conforta, quando estou alegre ele expande ainda mais minha alegria, quando estou em dúvida ele me explica, quando estou sozinha ele me acompanha e quando quero dançar ele faz a festa!
Enfim, todo sambista é um poeta e todo poeta é um boêmio, um amante, um sonhador e antes de tudo um sofredor, porque não há quem viva de verdade que não sofra com intensidade!
E hoje eu canto Paulinho da Viola:

Vem quando bate uma saudade
Triste, carregado de emoção
Ou aflito quando um beijo já não arde
No reverso inevitável da paixão
Quase sempre um coração amargurado
Pelo desprezo de alguém
É tocado pelas cordas de uma viola
É assim que um samba vem

Quando um poeta se encontra
Sozinho num canto qualquer do seu mundo
Vibram acordes, surgem imagens
Soam palavras, formam-se frases
Mágoas, tudo passa com o tempo
Lágrimas são as pedras preciosas da ilusão
Quando, surge a luz da criação no pensamento
Ele trata com ternura o sofrimento...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Crazyfrog enfrenta um poste!!

Acho que estamos precisando de uma história mais descontraída... Estou um tanto quanto chatinha (se é que é possível ficar mais) nos meus textos ultimamente... Talvez um tanto quanto melosa. Quem não tem os seus momentos??
Mas por onde anda os sacarmos, a ironia, a palhaçada? Hum??
Só vou falar um pouco da última que aconteceu! Vocês não vão acreditar!
Estava eu, no sábado à tarde, saindo do inglês, toda me achando a estudante, quando, de repente! Assim, do nada! PAAAAAAAFT!!! Meu Deus!! Olho para trás...
Um poste bateu em mim! Ou melhor, no Crazyfrog. Não, não deu para acreditar meu! Um poste bateu no Crazyfrog!!! Tadinho, recém-nascido, nunca havia ido ao ‘carriátra’, ainda com cheirinho de bebê... sniiiif... “como sofre o carro de uma pessoa boa!”
Na hora fiquei sem reação... Desci do carro e me deparei com aquele poste enooorme... E eu sozinha, uma pobre mulher indefesa, não podia enfrentar um poste daquele tamanho né?!
Entrei no Crazyfrog, triste e assustada, desci a avenida que homenageia aquele importante político paraibano (Forte é o povo!) e fui para casa sofrendo com o acidente de CrazyFrog.
No mais, à noite, tomei um vinho com minhas inseparáveis amigas e lamentei o acontecido. Sem falar nos consolos já conhecidos: “Poderia ter sido pior” (com certeza, já pensou se o poste além de bater tivesse se jogado encima do Crazynho?), ou “O importante é que nada aconteceu com você!” (não me diga! Jurava que o Crazyfrog era mais importante!).
E ainda não terminou...
Na terça, depois de haver visitado algumas oficinas e autorizadas (a cobrar mais caro, só pode ser) na segunda - para tentar não utilizar o plano de saúde do Crazynho (vocês sabem que sempre cobram aquela ‘co-participação’, então às vezes é melhor fazer particular), decido colocá-lo no melhor hospital mesmo (aquele ‘autorizado’ a cobrar mais caro!). Então ligo para o seguro (o melhor do Brasil por sinal, o BB Seguro Auto! Rsrsr). Segue trechos da conversa:
_ Boa tarde! Gostaria de comunicar um sinistro (no dicionário: ‘o desastre ocasionado no objeto segurado)
_ Sim senhora! Número de identificação da apólice, por favor.
.... E após todos os dados e blá blá blás, ela pergunta:
_ A senhora quer solicitar indenização para o proprietário do poste?
_ Indenização?! (prendo o riso) Claro que não! Quero é processá-lo por ter colocado o poste no lugar errado ora!
Ela também não se conteve... E foi um kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
E continua...
_ Quem a senhora considera culpado pelo acidente?
(mais uma vez eu prendo o riso)
_ Eu né! E vou culpar quem? O poste? (sei que o poste foi culpado, mas ninguém entende... rsrs)
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
E eu desligo o telefone ‘vermelha’ de tanto rir... pelo menos foi engraçado...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

sábado, 1 de agosto de 2009

Saudade do cheirinho de Hollywood

 


Hoje eu tinha até um programinha diferente, inauguração do sofá novo de uma amiga, claro que não importava o motivo, mas o encontro. Mesmo assim fiquei em casa, tem dias que nada parece mais atrativo que ela... Então fui assistir a um filme – Mr. Jones. Muito bom!! (O bom dos filmes emocionantes é que você aproveita o momento para extravasar as suas emoções também) E lembrei de você pai... sempre me lembro de você e você sabe que me sinto culpada de você ter ido quando eu ainda era uma adolescente alienada e de nada ter feito para te ajudar. Você se foi tão só meu pai.... e isso me dói tanto...
Às vezes eu me sinto frágil... sei que tenho que ser forte pai... sei que sou mãe e já sou uma mulher, mas desejo colo de vez em quando... O seu colo – que não pediria nada em troca, que me escutaria e daria os melhores conselhos, que me entenderia e buscaria me ajudar. Às vezes desejo sua proteção, queria alguém para tomar minhas dores de vez em quando, para resolver alguns problemas, para me defender de algumas coisas. Por vezes desejo o seu amor, para quem eu era realmente a mulher mais linda do mundo... os seus carinhos que me faziam sentir protegida... como você era carinhoso meu pai! Lembro que ficava com cheiro de Hollywood (cigarro), mas isso não me incomodava.
Também tenho saudades de sua alegria, daquelas coisas que os ‘normais’ chamam de loucura e que foram as que mais marcaram minha infância com você. Saudade de dançar em cima do seu pé, de sair passeando com você (e você parecceria que estava carregando um troféu). Saudade do seu amor meu pai - um amor puro, de verdade, que não exige nada que não seja a felicidade do outro. Era disso que eu estava precisando agora. Mas sei que você deve estar me escutando, porque sempre que isso acontece, eu acordo melhor no outro dia... só pode ser você falando com o grande Pai!
Às vezes as pessoas são tão estranhas e tolas, eu não consigo entender... sei que também sou difícil de entender... mas eu apenas busco viver com sinceridade, por inteiro, de verdade... E é tão difícil viver assim por aqui... talvez existam pessoas que pensem assim... quem sabe... é tudo tão superficial e grotesco... eu tento, sei que tento... mas não me encontro onde vou... não em sã consciência ... e às vezes me sinto cansada... sei que é cedo... mas acontece... E é no meio disso tudo e por isso tudo que queria você aqui pai... queria ser sua criança... queria ter onde me desmoronar... mas só tenho a mim...